O que são as Diretivas Antecipadas da Vontade (DAV)

O que são as Diretivas Antecipadas da Vontade (DAV)

Elas surgiram no final da década de 1960 nos Estados Unidos e desde o início da década de 1990 têm sido positivadas nos ordenamentos jurídicos de vários países. Nada mais são do que manifestações formais nas quais o paciente registra suas preferências em relação a tratamentos e intervenções médicas caso, no futuro, esteja incapaz de decidir.

Podem incluir:

•Limitação de suporte invasivo (como ventilação mecânica)
•Recusa de reanimação cardiopulmonar
•Definição de cuidados paliativos como prioridade

•Nomeação de um representante para decisões em saúde

No Brasil, as DAV estavam respaldadas pela Resolução nº 1.995/2012 do Conselho Federal de Medicina, que orientava o respeito à vontade previamente expressa pelo paciente, mas que apresentava limitações quanto a clareza. E recentemente as DAV ganharam novo status no ordenamento jurídico com a sanção da Lei 15.378/2026, que institui o Estatuto dos Direitos do Paciente. 

A nova lei as define como “declaração de vontade escrita sobre os cuidados, os procedimentos e os tratamentos que o paciente aceita ou recusa, a qual deve ser respeitada quando ele não puder expressar livre e autonomamente a sua vontade”.
 

Fundamentos Bioéticos das Diretivas Antecipadas

A discussão sobre diretivas antecipadas se sustenta em quatro princípios clássicos da bioética:

1- Autonomia

É o direito da pessoa decidir sobre o próprio corpo e tratamento.
Na geriatria, esse princípio ganha centralidade, especialmente em condições como a Doença de Alzheimer, nas quais a capacidade decisional pode se perder progressivamente.

Registrar preferências enquanto há lucidez é preservar a voz do paciente no futuro.

2 – Beneficência

Implica agir em benefício do paciente.

Quando conhecemos previamente seus valores, conseguimos alinhar intervenções ao que realmente significa “benefício” para aquela pessoa – que nem sempre é prolongar a vida a qualquer custo

3 – Não maleficência
Evitar danos é um princípio fundamental.

Intervenções desproporcionais, fúteis ou invasivas podem prolongar sofrimento sem agregar qualidade de vida. As diretivas ajudam a prevenir esse tipo de distorção terapêutica.

4 – Justiça
Respeitar escolhas também é uma questão de equidade e uso responsável de recursos de saúde.
Tratamentos alinhados às preferências do paciente evitam medicalização excessiva e conflitos desnecessários.
 

Quando abordar o tema?

O momento ideal é durante acompanhamento clínico estável e quando o paciente está ciente dos seus atos – nunca em situações de crise – e deseja formalizar como deseja que seu tratamento médico seja feito.

A conversa deve ser gradual, ética e acolhedora, permitindo que o paciente reflita sobre: o que considera qualidade de vida, o  que teme em relação à dependência e quais limites deseja estabelecer.

Na prática geriátrica, as DAV  representam a convergência entre ciência, ética e humanidade.
Elas protegem autonomia, reduzem conflitos familiares e evitam intervenções desproporcionais.

Mais do que discutir tratamentos, estamos falando de respeito à história, valores e identidade de cada pessoa.

Planejar é um ato de maturidade.

Cuidar bem até o fim é também garantir que a vontade do paciente permaneça viva.
 

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