Violência contra a pessoa idosa e etarismo: o que ainda insistimos em não ver

Violência contra a pessoa idosa e etarismo:
o que ainda insistimos em não ver

Falar sobre envelhecimento também é, inevitavelmente, falar sobre respeito.

A violência contra a pessoa idosa nem sempre é explícita. Muitas vezes, ela se manifesta de forma silenciosa, diluída em atitudes cotidianas que passam despercebidas – ou pior, que foram normalizadas. Interromper constantemente a fala, desconsiderar opiniões, tratar como incapaz, infantilizar decisões ou excluir de escolhas importantes são formas sutis, porém profundas, de violência.

Mas é importante nomear também as formas mais reconhecidas – e igualmente graves – de violência. Ela pode ser física, quando há agressões ou contenções inadequadas; psicológica ou emocional, por meio de humilhações, ameaças ou isolamento; financeira, quando há uso indevido de recursos, manipulação ou exploração; e até institucional, quando o cuidado é negligente ou despersonalizado. Em muitos casos, essa violência acontece dentro de relações de confiança, inclusive no ambiente familiar ou conjugal, o que torna sua identificação ainda mais delicada.

No Brasil, esse é um problema crescente e alarmante. Observa-se uma tendência de aumento nas denúncias, especialmente no ambiente doméstico – onde o idoso deveria estar mais protegido. Dados recentes apontam um aumento expressivo de cerca de 38% nas denúncias em 2025, reforçando a dimensão e a urgência do tema.

Entre os principais tipos de violência, destacam-se:
– negligência e abandono, muitas vezes silenciosos e prolongados;
– violência psicológica, marcada por desprezo, humilhação e desvalorização;
– abuso financeiro, com uso indevido de recursos ou manipulação;
– violência física;
– além do próprio etarismo, que sustenta e legitima muitas dessas práticas.

O etarismo – o preconceito baseado na idade – sustenta grande parte dessas violências. Ele parte de uma ideia equivocada de que envelhecer significa perder valor, utilidade ou capacidade de decidir. E, quando essa visão se instala, abre espaço para negligência, desrespeito e abusos.

Mas o ponto mais delicado é que o etarismo não está apenas “nos outros”. Ele pode estar na cultura, nas instituições e, muitas vezes, de forma inconsciente, em cada um de nós. Está na pressa em decidir pelo outro, na dificuldade de escutar com paciência, na tendência de reduzir uma pessoa à sua idade ou às suas limitações.

Envelhecer não retira de ninguém o direito à autonomia, à escuta e ao cuidado digno. Ao contrário: quanto mais vulnerabilidades podem surgir com o tempo, mais necessário se torna um olhar atento, respeitoso e ético.

Combater a violência contra a pessoa idosa começa por reconhecer essas formas – visíveis e invisíveis – de desrespeito. E combater o etarismo exige uma mudança de perspectiva: deixar de ver o envelhecimento como perda e passar a enxergá-lo como parte legítima, complexa e valiosa da vida.

Se houver suspeita ou confirmação de violência, é fundamental denunciar. No Brasil, isso pode ser feito de forma gratuita e anônima pelo Disque 100.

No fim, a forma como tratamos quem envelhece diz muito sobre a sociedade que estamos construindo – e sobre o futuro que, inevitavelmente, será o de todos nós.

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