Polifarmácia: quando tratar demais passa a ser um risco
Com o passar dos anos, é comum que novos diagnósticos surjam e, com eles, novas prescrições.
Um remédio para a pressão, outro para o colesterol, um para o sono, outro para dor. E, aos poucos, a lista cresce.
Muitas vezes, cada medicação foi iniciada com uma justificativa legítima.
O problema não está, necessariamente, em cada remédio isoladamente. Está no conjunto.
O organismo envelhece, e com ele mudam a forma de metabolizar, a sensibilidade aos efeitos das medicações e a capacidade de adaptação.
O que antes era bem tolerado pode passar a causar efeitos colaterais. O que parecia seguro pode começar a interferir no equilíbrio, na cognição, na pressão.
E, frequentemente, esses efeitos não são reconhecidos como sendo dos próprios remédios.
Tontura vira “idade”. confusão mental vira “memória ruim”, quedas passam a ser vistas como acaso.
Quando, na realidade, podem ser consequência de interações medicamentosas ou de um excesso de prescrição.
A polifarmácia – geralmente definida como o uso de múltiplas medicações (cinco ou mais) – está associada a um aumento importante de riscos: quedas, internações, declínio cognitivo, perda funcional.
E existe um ponto ainda mais delicado: muitas prescrições são mantidas sem reavaliação ao longo do tempo.
Medicações iniciadas anos atrás continuam sendo usadas, mesmo quando o contexto clínico já mudou.
Na Geriatria, prescrever não é um ato isolado. É um processo que exige revisão constante.
Tão importante quanto saber quando iniciar um tratamento é saber quando ele deixa de fazer sentido e isso exige uma análise que vá além de protocolos.
Porque diretrizes são construídas, em sua maioria, para doenças específicas – não para pessoas com múltiplas condições, prioridades e níveis de funcionalidade diferentes.
O cuidado precisa ser individualizado, considerando a expectativa de vida, objetivos do paciente, impacto real na qualidade de vida, risco de efeitos adversos e interação entre tratamentos.
Nem tudo o que é indicado em teoria se sustenta na prática de um organismo em envelhecimento. E nem tudo o que foi indicado um dia precisa ser mantido para sempre.
Como geriatra, entendo que existe um equilíbrio delicado entre tratar e não causar dano e é nesse ponto que o acompanhamento contínuo faz diferença. Porque permite revisar, ajustar, simplificar e, muitas vezes, retirar.
Cuidar também é saber desprescrever.
E, em muitos casos, menos medicação significa mais clareza, mais estabilidade melhores desfechos.
No fim, a prática clínica exige discernimento.
Saber que o que está claro e cientificamente indicado deve ser mantido; o que passou a não ter finalidade terapêutica deve ser suspenso e o que é potencialmente prejudicial, precisa ser questionado e reavaliado.
Mais uma vez, individualizar não é exceção na Geriatria, mas sim, a base do cuidado.
