Nem toda tontura é “labirintite”

Nem toda tontura é “labirintite”

A tontura é uma das queixas mais frequentes no consultório de geriatria.

Muitos pacientes chegam preocupados, já com o diagnóstico de “labirintite”, muitas vezes em uso de medicações há anos.
Mas a realidade é outra: nem toda tontura tem origem no labirinto – e, na prática, essa é uma causa menos comum do que se imagina.

No envelhecimento, a tontura costuma ser multifatorial.
E entender a causa correta não é apenas uma questão de diagnóstico – é uma forma de reduzir um dos maiores riscos dessa fase da vida: as quedas.

Por que a tontura é tão comum?

O equilíbrio depende da integração de vários sistemas: ouvido interno, cérebro e sistema nervoso, visão, pressão arterial, músculos e articulações.
Com o passar dos anos, pequenas alterações em qualquer um deles já são suficientes para gerar instabilidade. Além disso, entram dois fatores centrais na geriatria: doenças crônicas e uso de múltiplas medicações.

Nem toda tontura é igual – e isso muda tudo

No consultório, “tontura” pode significar coisas muito diferentes.
Alguns pacientes descrevem: sensação de que tudo gira, instabilidade ao caminhar, escurecimento da visão ao levantar, sensação de desmaio iminente. Cada um desses padrões aponta para causas distintas e, portanto, tratamentos completamente diferentes.
Por isso, rotular tudo como “labirintite” simplifica e generaliza, atrasando muitas vezes o diagnóstico e o tratamento correto.

Causas frequentes na prática:

Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB)
Provoca tontura rotatória breve ao mudar a posição da cabeça.
É comum e, na maioria das vezes, tratável com manobras específicas.

Efeitos de medicamentos
Uma das causas mais negligenciadas.
Anti-hipertensivos, sedativos, antidepressivos e outros podem causar tontura – especialmente em combinação.

Queda de pressão ao levantar (hipotensão ortostática)
Muito frequente no idoso.
Gera escurecimento visual, fraqueza e sensação de desmaio ao ficar em pé.

Desidratação
Subestimada, mas comum.
Ingesta inadequada de líquidos pode levar a tontura e instabilidade.

Causas neurológicas ou vasculares
Menos comuns, mas mais graves.
Devem ser consideradas principalmente quando há sintomas associados como fraqueza, alteração da fala ou perda de coordenação.

Quando investigar?
Toda tontura merece atenção – especialmente quando: é frequente ou persistente, está associada a quedas, surgiu após início de medicações, causa desequilíbrio importante, vem acompanhada de sinais neurológicos.

Tontura não é apenas um desconforto: é um marcador de risco e não podemos simplificar o que é complexo
Reduzir tontura a “labirintite” pode parecer prático, mas ignora a complexidade do envelhecimento.

Na maioria das vezes, existe mais de um fator envolvido e é justamente essa interação que precisa ser compreendida.
Por isso, a avaliação adequada exige tempo, escuta e integração de informações – fazer o diagnóstico correta muda o tratamento.
Mais do que tratar, é ajustar o todo e em muitos casos, o manejo não está em “prescrever mais”, mas em revisar: rever medicações, ajustar doses, corrigir fatores simples, diagnosticar e tratar corretamente.

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